post

O criacionismo, ou a teoria da concepção inteligente, é um movimento que defende que a vida na Terra começou tal como vem na Bíblia, com Adão e Eva, e que todos descendemos dos animais e humanos que embarcaram na Arca de Noé. É um movimento religioso e fundamentalista, que tenta afastar dos manuais escolares a teoria da evolução de Darwin, e tem grande expressão nos Estados Unidos. Mas começa a ganhar terreno na Europa e está a chegar a Portugal. Por Clara Barata (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos).

Charles Brabec traz para a mesa uma série de fósseis. Dentro de uma caixinha transparente está um pedacinho de âmbar amarelo, com uma minúscula mosca-do-vinagre lá dentro. “É resina fossilizada, muito antiga; por que é que as moscas-do-vinagre continuam a existir? Não evoluíram!”, diz Charles Brabec, que está a construir um museu criacionista em Mafra, o primeiro do tipo na Europa. “Contamos abrir na Primavera.”

Foi a seguir ao 25 de Abril, quando regressaram os portugueses que estavam em África, que Brabec esteve pela primeira vez em Portugal, como voluntário da organização Apoio Cristão Internacional. Suíço nascido na Áustria, a certa altura sentiu que queria ficar por cá. “Há 18 anos, começámos a procurar uma quinta, para organizar acampamentos e retiros de jovens”, conta. Foi assim que acabou na Quinta Oásis, em Mafra, que alojará o Parque Discovery, onde será apresentada uma versão alternativa da vida na Terra.
Charles Brabec é criacionista, ou seja, não aceita a teoria da evolução através da selecção natural, postulada por Charles Darwin no século XIX. Para ele, o que vale é a palavra da Bíblia, o que se diz no livro do Génesis, que relata a criação do mundo por Deus e tudo o que aconteceu ao homem quando Eva escolheu aceitar a maçã que a serpente lhe oferecia. “Acredito neste livro de capa a capa”, diz Brabec, abrindo a Bíblia bastante manuseada que tem à sua frente.

A fé no Génesis
Brabec foi criado numa família católica, mas tornou-se cristão evangélico. São os fiéis das igrejas evangélicas, que orientam as suas práticas pelo que bebem directamente na Bíblia, que normalmente estão associados ao movimento criacionista ou, nas suas roupagens mais modernas, da concepção inteligente.
Os criacionistas fazem fé na veracidade da criação do mundo tal como vem no Génesis. A teoria da concepção inteligente – divulgada pelo Instituto Discovery, com sede em Seattle, nos EUA – exige a existência de um criador, uma entidade inteligente que escolheu criar o homem, as árvores ou os animais. A vida não pode ter surgido por acaso.
“O Livro de Job descreve coisas fantásticas, como o ciclo da água, ou até os dinossauros, o “diplodocus”, ao falar do Leviatã, das suas escamas e dentes. Como é que ele poderia saber todas estas coisas, se os dinossauros se tivessem extinguido há milhões de anos, antes de existirem humanos?”, pergunta Charles Brabec.
Para ele, a Terra não terá mais que 4000 anos (os cientistas falam em 4500 milhões de anos). Todos os seres vivos que hoje existem descendem das espécies salvas por Noé na sua arca, aquando do dilúvio. Os dinossauros terão perecido nessa altura, mas foram contemporâneos dos humanos (apesar de haver provas de que se extinguiram há 65 milhões de anos, e os primeiros homens modernos surgiram apenas há 150 mil anos).
Brabec cita muitos outros exemplos clássicos dos criacionistas, como a evolução do olho: “Se a evolução é gradual, que vantagem teria um ser vivo em ter só um buraco na cara, sem um órgão da visão?”, pergunta. Os cientistas dizem que esta invenção é tão interessante que surgiu várias vezes, em várias espécies, e pode começar por ser apenas um conjunto de tecidos sensíveis à luz. “É muito difícil de acreditar nisso. É mais fácil crer que Deus omnipotente o criou de uma vez só. É preciso mais fé para acreditar na evolução do que na criação, relatada na Bíblia, que é um livro inspirado por Deus”, responde.

Instituto Discovery
Até há pouco tempo, este fenómeno era descrito como quase exclusivamente americano, associado a igrejas evangélicas nos EUA próximas da direita conservadora. O Instituto Discovery, de Seattle, é uma espécie de think tank, uma organização que financia e promove actividades que põem em causa a evolução, ou apresenta a questão como se houvesse uma polémica científica. Mas, entre os cientistas, esse é um ponto assente, que não suscita dúvidas.
Charles Brabec diz que não tem nada a ver com o Instituto Discovery. “O nome que escolhemos era Dinoásis. Mas quando o fomos registar como nome da empresa, não foi aceite. Tivemos de inventar à pressa, e o que surgiu foi Instituto Discovery”, conta.
Ele é presidente e fundador do Instituto Discovery Portugal, que abrirá o Parque Discovery, ali naquela quinta em Mafra. “Conheço o seu trabalho, mas isto surgiu sem estar a pensar neles.”
E quem financia o museu? “Temos patrocinadores discretos, que não querem ser conhecidos”, diz. Por ora, o local do futuro museu ainda é apenas um barracão, mas terá um diaporama que mostra o mundo antes, durante e depois do dilúvio, répteis vivos (em representação dos dinossauros) e até um planetário, onde serão exibidos filmes sobre o Universo. Serão usados materiais criacionistas produzidos no Brasil.

Flintstones e um tiranossauro
À porta, grandes pedregulhos empoleirados servem de colunatas. “Tem um certo de ar de Flintstones, não tem?”, pergunta. São pedras especiais: são feitas de conchas fossilizadas, como há muitas na região de Mafra, nota Brabec, que é apreciador de fósseis e gemas. E de dinossauros: já tem vários bonecos de plástico e até há um pterodáctilo empoleirado num candeeiro da sala onde estão afixados cartazes, fósseis e animais empalhados, e onde já organiza, de vez em quando, algumas conferências.
A caminho do local onde ficará o museu, passando por alguns dragoeiros, araucárias e cactos que trouxe da Madeira e dão ao local um ar primitivo, onde se pode esperar encontrar um dinossauro ao virar da folhagem, encontra-se mesmo uma cabeça de tiranossauro… Está a espreitar do cimo de um edifício branco baixinho: tem os dentes amarelos e está um bocado à banda. “Fui eu que fiz, com esferovite, cimento, metais… O resto do corpo apodreceu”, conta Brabec.
E quem vai servir de guia e animador das visitas, que se destinarão sobretudo ao público juvenil? “Temos um grupo de voluntários.” E estão ligados a alguma igreja em particular? “Não, a várias igrejas. O movimento criacionista ainda está a começar a Portugal.”


Fonte